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"Um voto pelo Benfica" por Filipe Inglês

"Quero um Presidente que partilha da minha frustração quanto ao insucesso desportivo que o clube vive há mais de duas décadas e diz que a Glória é agora. Que nem me tenta convencer de que o que se vive agora já é bom ou então que num próximo mandato "é que é"."

 

No próximo dia 30 de Outubro os mais de 200.000 sócios do Sport Lisboa e Benfica serão chamados a eleger o presidente e os órgãos sociais que o acompanham para o quadriénio 2020-2024. À sua escolha terão três listas (eventualmente quatro, se a lista liderada por Bruno Costa Carvalho conseguir avançar) encabeçadas por Luís Filipe Vieira, João Noronha Lopes e Rui Gomes da Silva. Fundamentalmente, o que está em causa é o seguinte: os sócios querem mais quatro anos da atual presidência ou uma ruptura. E em caso de ruptura, optam por Noronha Lopes ou Rui Gomes da Silva?

Como sócio do Benfica, também eu irei votar. E nas próximas linhas explico como tomei duas decisões. Primeiro, que não votaria em Luís Filipe Vieira. E segundo como, depois de analisar o discurso, programa e listas dos restantes candidatos, decidi que vou votar em João Noronha Lopes.

Luís Filipe Vieira é o Presidente com maior longevidade na História do Benfica. Chegou em 2001 como diretor desportivo, passou a Presidente da SAD e em 2003 sucedeu a Manuel Vilarinho no cargo principal do clube. Ao longo destes quase 20 anos liderou a recuperação da "instituição" de um estado calamitoso para evoluções claras ao nível financeiro, estrutural e organizacional, ao qual acompanhou alguma evolução ao nível desportivo. Foi um Presidente essencial para a construção do novo Estádio, do Museu, do canal de televisão e de um centro de formação que produz talentos como mais nenhum em Portugal ou até no mundo. E, no entanto, apesar de lhe valorizar esses méritos, já há muito tempo que tinha decidido não votar nele. Porquê? Porque, para além de estar claramente num final de ciclo (que o próprio admite) em que tudo aquilo a que se propunha já está esgotado ou falhou repetidamente, há dois "pecados" que me são difíceis de ultrapassar: a credibilidade e o sucesso desportivo. Passo a explicar:

Luís Filipe Vieira não tem o meu voto porque não posso querer como Presidente alguém que está embrenhado em vários casos de justiça, para onde tem arrastado o nome do clube, com evidentes prejuízos reputacionais. Não quero como Presidente alguém que trouxe para o clube figuras que nunca me agradaram como José Veiga, Pedro Guerra e Paulo Gonçalves. Não quero como Presidente alguém que coloca a mão no pescoço a um sócio na Assembleia, sem qualquer consequência ou pedido de desculpa. Não quero como Presidente alguém que durante a campanha não responde a perguntas de sócios, se recusa a ir a debates, que diz que a sua sucessão deve ser preparada por ele e não "numas eleições quaisquer", e pior que tudo proíbe os meios comunicacionais do clube de falarem nas outras candidaturas. Não quero como Presidente alguém que já assumiu nada perceber de futebol. Não quero como Presidente alguém que, apesar de realmente nada perceber de futebol, insiste em tomar decisões de forma unilateral, pois está convencido de que só ele vê mais à frente. Não quero como Presidente alguém que não soube aproveitar um rival em extremas dificuldades financeiras e perdeu 2 campeonatos em 3 por incompetência e desleixo. Não quero como Presidente alguém que gasta 100 milhões em ano de eleição e nem 10 milhões em ano de possível "penta". Não quero como Presidente alguém que vai ao estrangeiro vender jogadores do Benfica e tira fotos sorridente com a camisola do clube comprador. Não quero como Presidente alguém que fez uma obra fantástica no Seixal, mas que a torna numa fábrica mercantilista em que os produtos são todos vendidos mal chegam à montra ou até antes disso. Não quero como Presidente alguém que a meio da temporada, com a equipa embrenhada na luta do título, se lamenta que por causa da pandemia não pode vender mais jogadores. Não quero como Presidente alguém que em 17 anos falhou a conquista de 10 campeonatos e de 14 Taças de Portugal. Não quero como Presidente alguém que prometia em 2003 que o Benfica seria maior que o Real Madrid, em 2006 que seria o maior da Europa no espaço de cinco anos, em 2018 que ia ser campeão europeu e em 2020 nem na Liga dos Campeões o Benfica está. Não quero como Presidente alguém que em 2002 dizia que ia embora porque os "abutres" não o deixavam trabalhar, em 2005 porque não se atingia os 300.000 sócios, em 2009 porque o clube lhe tirava espaço à família e em 2020 pede mais um mandato. Não quero como Presidente alguém que vinte anos depois insiste que os adeptos estejam agarrados à constante comparação com o estado em que encontrou o clube e que isso sirva sempre de desculpa para todos os erros que comete ano após ano.

E porque votarei em João Noronha Lopes? Porque quero um Presidente com um perfil de líder e de experiência comprovada. Porque quero um Presidente impoluto, com um currículo impecável e que vem de fora dos meandros do futebol. Porque quero um Presidente que garante não ir festejar vendas, mas sim títulos. Porque quero um Presidente de um Benfiquismo comprovado, onde facilmente arranja fotos e vídeos dele a apoiar o clube ao longo dos anos. Porque quero um Presidente que propõe uma limitação de mandatos e não um perpetuar no poder. Porque quero um Presidente que levará à Assembleia a mudança de estatutos no que diz respeito ao número de votos de cada sócio e aos anos requeridos para a Presidência. Porque quero um Presidente que apresentou uma lista com currículos e Benfiquismo notáveis, onde o sócio mais recente não passa do número 25.000. Porque quero um Presidente que deixa bem claro que com Pinto da Costa não há negócios, cumprimentos e abraços possíveis no passado, presente ou futuro. Porque quero um Presidente que apresenta várias e excelentes ideias para mudar o conceito de ida ao estádio e trazer de volta o "Inferno da Luz". Porque quero um Presidente que garante ir afastar quem está no clube a defender o "status quo" e não o Benfica. Porque tem do seu lado glórias que admiro, como António Simões, Isaías e Vítor Paneira, e sócios que respeito, como Pedro Adão e Silva, Ricardo Araújo Pereira e Vasco Mendonça. Porque quero um Presidente que partilha da minha frustração quanto ao insucesso desportivo que o clube vive há mais de duas décadas e diz que a Glória é agora. Que nem me tenta convencer de que o que se vive agora já é bom ou então que num próximo mandato "é que é".

São estas algumas das razões que me fazem votar em João Noronha Lopes. Respeito imenso o Benfiquismo de Rui Gomes da Silva, mas parece-me não ter o perfil nem a personalidade indicada. Fez uma campanha muito baseada num "one man show" que não me agradou, e as constantes promessas de pôr o Benfica a lutar por ser Campeão Europeu todos os anos parece-me mais populismo desmedido que ambição racional. Com todo o respeito, sinto que a outra lista apresenta mais e melhores argumentos. O mesmo em relação a Bruno Costa Carvalho.

Dito tudo isto, lanço um desejo fundamental: que após as eleições nos unamos todos em volta do Benfica. Se Luís Filipe Vieira ganhar (o que até é bem provável) será o meu Presidente. Desejo-lhe sempre o maior dos sucessos, porque o sucesso dele é a minha felicidade. O Glorioso está acima de tudo e de todos e teremos que avançar unidos na procura do desejo fundamental: um Benfica impoluto que honre o seu passado, sendo indiscutivelmente o melhor clube português e um dos melhores na Europa.

Texto escrito por Filipe Inglês | 19 Outubro de 2020 | Fonte: zerozero

 

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