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"Vieira ou o dilúvio?"

Texto de Pedro Adão e Silva, publicado originalmente no Record.

 

Em março de 1962, ainda na ressaca da vitória contra o Barcelona na final da Taça dos Campeões Europeus, os benfiquistas elegiam Fezas Vital para suceder a Maurício Vieira de Brito na presidência, numa salutar rotatividade diretiva, condizente com os pergaminhos democráticos do clube. Dois meses depois, já com António Simões eEusébio na equipa, o Benfica ganharia uma nova final europeia, desta feita em Amesterdão contra o Real Madrid. O que se seguiu a esta tão aventureira troca de cadeiras não foi a catástrofe, nem o dilúvio. Foram quatro finais europeias em seis anos, num ciclo que constituiu o período mais triunfal da nossa história centenária.


Aliás, num momento em que pairou efetivamente um espetro de dissolução sobre o clube, Vale e Azevedo ameaçou, há precisamente 20 anos, que, caso saísse da presidência, se seguiria o caos. Sabemos bem que aconteceu precisamente o contrário: foi acoragem de Manuel Vilarinho que resgatou o clube, devolvendo-o aos sócios.


É justo argumentar que os tempos que vivemos são bem diferentes.Se, por um lado, administrar um clube de topo europeu nos anos 60 era significativamente diferente de liderá-lo hoje em dia, é igualmente verdade que o Benfica não mostra ser o colosso desses tempos. Se, dantes, enfrentar os maiores clubes do Mundo em finaisinternacionais fazia parte de um glorioso quotidiano, hoje colapsamos diante dos segundos classificados da 18.ª maior liga europeia, antes ainda de a competição começar oficialmente.


Bem pode Luís Filipe Vieira anunciar o dilúvio, mas o Benfica tem hoje, em parte pelas alterações profundas que ocorreram nos últimos 20 anos, condições para encetar uma mudança tranquila. É essa, aliás, a prática normal nas organizações maduras, que prezamos mecanismos democráticos. Infelizmente, se hoje paira uma ameaça de dilúvio sobre o Benfica, esta não está na mudança, mas, sim, na perpetuação do atual ciclo de poder.


Os sintomas de fim de ciclo são manifestos e, essencialmente, preocupantes. Depois de uma breve aparição de 60 segundos na apresentação do treinador, o presidente do Benfica desapareceu, enquanto consegue a proeza única de se fazer representar por três porta-vozes. Na sexta-feira, aliás, tivemos um momento único: o porta-voz número três, conhecido sportinguista, em modo moralmente esbracejante, entre justificações autoincriminatórias decondutas impróprias, foi ao ponto de dar conselhos sobre o que a "família benfiquista" (sic) devia ou não fazer.
Como benfiquista, tenho de facto uma recomendação: era importante termos um presidente dedicado a tempo inteiro ao Benfica e um clube liberto de ‘benfiquistos’. Essa, sim, é uma mudança que protege o Benfica do dilúvio.

 

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